A História do Rádio no Brasil — Episódio 2

O rádio deixa de ser experiência e vira fenômeno de massa
Na década de 1930, a radiodifusão brasileira passou por uma transformação decisiva. A publicidade entrou na programação, novos formatos conquistaram o público e o rádio começou a se tornar uma poderosa indústria de entretenimento e informação.
No primeiro episódio desta série, voltamos aos primeiros passos do rádio no Brasil e conhecemos figuras como Roberto Landell de Moura e Edgard Roquette-Pinto. Também vimos o surgimento da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em 1923, com uma proposta essencialmente educativa e cultural.
Mas o rádio que conhecemos hoje começou a ganhar seus contornos mais populares durante a década de 1930.
Foi nessa época que o aparelho deixou de ser apenas uma novidade tecnológica para começar a ocupar um espaço cada vez maior dentro das casas brasileiras.
O rádio começou a falar com o Brasil.
E o Brasil começou a falar sobre o rádio.
A publicidade muda o jogo

Nos primeiros anos, muitas emissoras dependiam das contribuições dos próprios ouvintes e funcionavam em um modelo semelhante ao dos clubes de rádio.
Isso começou a mudar em 1932, quando o governo de Getúlio Vargas regulamentou a radiodifusão e permitiu a utilização de publicidade comercial nas transmissões. A mudança abriu caminho para um novo modelo econômico para o setor.
O rádio ganhou uma nova fonte de financiamento.
E, com dinheiro dos anunciantes, as emissoras puderam investir mais na programação, contratar artistas e criar atrações capazes de conquistar audiências cada vez maiores.
A transformação foi enorme.
O rádio deixava de ser apenas um projeto cultural e educativo e passava, gradualmente, a funcionar também como uma indústria de entretenimento.
O nascimento do jingle brasileiro

Uma das maiores demonstrações dessa transformação aconteceu justamente em 1932.
No Programa Casé, apresentado na Rádio Philips, o músico e compositor Antônio Gabriel Nássara criou o que é apontado pela EBC como o primeiro jingle do rádio brasileiro.
A ideia surgiu para ajudar a conquistar um anunciante: a Padaria Bragança.
O resultado foi uma propaganda cantada, fácil de memorizar e completamente diferente dos anúncios tradicionais.
O sucesso ajudou a mostrar que a publicidade no rádio poderia fazer muito mais do que simplesmente interromper a programação.
Ela poderia se transformar em música.
E música poderia virar memória.
Esse modelo faria escola.
Nas décadas seguintes, os jingles passariam a fazer parte da identidade do rádio brasileiro e seriam capazes de transformar produtos e marcas em expressões conhecidas por milhões de ouvintes.
Ademar Casé: um homem que entendeu o poder do rádio
Se a publicidade ajudou a mudar o modelo econômico do rádio, Ademar Casé ajudou a mudar sua linguagem.
O Programa Casé, lançado em 1932, reuniu elementos que se tornariam fundamentais para a radiodifusão brasileira: música, humor, artistas, dramatizações, jornalismo e variedades.
Casé não era apenas um apresentador. Atuava principalmente nos bastidores, organizando uma programação que precisava prender a atenção do público durante horas.
Foi também nessa experiência que começaram a aparecer novas formas de profissionalização.
Cantores e atores passaram a receber cachês. Artistas começaram a ser contratados com exclusividade. A programação ganhou mais planejamento.
O rádio começava a criar uma verdadeira indústria de talentos.
E os ouvintes começavam a conhecer seus primeiros grandes ídolos.
O rádio descobre a música brasileira

A década de 1930 também foi fundamental para a música popular brasileira.
As emissoras de rádio ajudaram a espalhar pelo país canções, compositores e intérpretes que, em outros tempos, teriam muito mais dificuldade para alcançar um público nacional.
Nomes como Carmen Miranda, Francisco Alves, Orlando Silva, Sílvio Caldas, Aracy de Almeida e Mario Reis, entre tantos outros, passaram a ocupar um espaço crescente na programação.
A rádio ajudava a transformar artistas locais em celebridades nacionais.
A música também se beneficiava dessa nova realidade.
Samba, marchinhas e outros gêneros brasileiros alcançavam um número cada vez maior de pessoas graças às ondas radiofônicas. A década de 1930 foi especialmente importante para essa expansão da música popular brasileira.
O rádio começava, portanto, a fazer algo que seria fundamental durante toda a sua história:
criar uma cultura compartilhada.
Uma música lançada no Rio de Janeiro podia ser ouvida em outras partes do país.
Um cantor podia se tornar famoso sem nunca ter se apresentado pessoalmente para todos os seus fãs.
A voz atravessava fronteiras.
Um país que começava a se ouvir
É impossível entender o crescimento do rádio sem olhar para o Brasil daquela época.
Grande parte da população ainda vivia fora dos grandes centros urbanos, e o analfabetismo era elevado. Nesse cenário, o rádio tinha uma vantagem enorme em relação à imprensa escrita: para ouvir, não era necessário saber ler.
A historiadora Lia Calabre destaca justamente essa característica ao analisar o crescimento do rádio na década de 1930. O meio conseguia alcançar pessoas de diferentes classes sociais e em diferentes regiões.
Isso ajudou a transformar o rádio em um dos primeiros grandes meios de comunicação de massa do Brasil.
O aparelho passou a ocupar um lugar central dentro de muitas residências.
A família se reunia em volta dele.
Ouvia música.
Esperava o programa favorito.
Acompanhava notícias.
E, pouco a pouco, criava uma relação afetiva com determinadas vozes.
O locutor já não era apenas alguém do outro lado do aparelho.
Ele começava a fazer parte da vida do ouvinte.
O rádio também entra na política

Na década de 1930, enquanto o rádio conquistava popularidade, o Brasil também vivia um período de profundas transformações políticas.
O governo de Getúlio Vargas percebeu rapidamente o alcance que o novo meio poderia ter.
O rádio não servia apenas para divertir.
Também poderia transmitir discursos, divulgar informações e construir uma comunicação direta com a população.
Essa relação entre rádio e poder político se tornaria ainda mais importante nos anos seguintes, principalmente durante o Estado Novo, iniciado em 1937.
O governo passaria a utilizar cada vez mais os meios de comunicação como instrumentos de divulgação de suas ações e de construção de sua imagem pública.
O rádio estava deixando de ser apenas entretenimento.
Estava se tornando também uma ferramenta estratégica de comunicação.
1936: nasce a Rádio Nacional

Foi justamente nesse cenário de expansão que surgiu uma das emissoras mais importantes de toda a história do rádio brasileiro.
Em 12 de setembro de 1936, entrou no ar, no Rio de Janeiro, a Rádio Nacional.
A primeira transmissão começou às 21h e teve como abertura musical “Luar do Sertão”, de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco. A voz inaugural foi a do locutor Celso Guimarães.
A emissora fazia parte do grupo ligado ao jornal A Noite e rapidamente se tornaria uma das maiores potências da radiodifusão brasileira.
Seu nascimento marcou uma nova fase.
A Rádio Nacional ajudaria a consolidar uma linguagem radiofônica que combinava música, informação, dramaturgia, esporte e entretenimento.
Mas sua história ainda estava apenas começando.
O rádio entra definitivamente na vida dos brasileiros
Ao chegar ao final dos anos 1930, o Brasil já tinha um cenário completamente diferente daquele encontrado no início da década.
A publicidade havia transformado a economia das emissoras.
Os programas de variedades haviam mudado a linguagem.
Os artistas haviam se tornado celebridades.
A música brasileira encontrara nas ondas do rádio um poderoso veículo de divulgação.
E o público havia descoberto uma nova forma de companhia.
O rádio já não era mais uma novidade.
Era um fenômeno.
E estava prestes a entrar em sua fase mais famosa.
A Era de Ouro estava chegando

Os anos 1940 seriam decisivos.
A Rádio Nacional alcançaria enorme influência.
As radionovelas prenderiam o público diante dos aparelhos.
Os programas de auditório transformariam cantores em verdadeiros ídolos.
O radiojornalismo ganharia novos formatos.
O futebol encontraria no rádio uma de suas maiores ferramentas de popularização.
E algumas das vozes mais conhecidas da história brasileira surgiriam justamente nesse período.
O rádio entraria em sua Era de Ouro.
E, quando isso aconteceu, o Brasil já estava completamente sintonizado.
📻 No próximo episódio
Episódio 3 — A Era de Ouro do Rádio: quando o Brasil parava para ouvir
No próximo capítulo, vamos entrar nos anos 1940 e conhecer a fase em que o rádio brasileiro atingiu seu auge. Vamos falar sobre a Rádio Nacional, radionovelas, programas de auditório, grandes cantores, futebol e o nascimento dos ídolos que marcaram gerações.
A história começa a ficar ainda mais emocionante.



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