A História do Rádio no Brasil — Episódio 1

Quando a voz começou a viajar pelo ar
A história do rádio no Brasil é algo fascinante, nessa primeira postagem dessa série vou apresentar os momentos históricos do surgimento do veículo no nosso país. Nesse período podemos notar, que muito antes de conquistar multidões, criar ídolos e se transformar em companhia de milhões de brasileiros, o rádio nasceu de experiências científicas e do sonho de levar informação, cultura e educação para além dos grandes centros.
Imagine viver em uma época em que ouvir uma voz sem que a pessoa estivesse diante de você parecia algo extraordinário. Foi um salto tecnológico impressionante.
Hoje, estamos acostumados a ouvir rádio pelo celular, pelo computador, no carro e até em caixas de som conectadas à internet. Mas, há pouco mais de um século, a possibilidade de transmitir uma voz pelo ar representava uma verdadeira revolução tecnológica.
A história do rádio no Brasil começa justamente nesse período de descobertas.
E, para contar essa história, precisamos voltar algumas décadas antes de os brasileiros se reunirem diante de um aparelho para acompanhar notícias, música, futebol e novelas.
Antes do rádio, os pioneiros
Entre os personagens que fazem parte dos primeiros capítulos dessa história está o padre gaúcho Roberto Landell de Moura.

Além de sacerdote, Landell era inventor e pesquisador. No final do século XIX, realizou experiências de transmissão de voz utilizando ondas eletromagnéticas.
Registros históricos apontam experiências realizadas por ele em São Paulo em 1899 e 1900, em demonstrações que estão entre os primeiros registros brasileiros relacionados à transmissão de voz sem fios.
Landell não recebeu, em seu tempo, o reconhecimento que posteriormente seria dado a outros inventores ligados ao desenvolvimento das comunicações por rádio.
Sua trajetória, porém, passou a ocupar um lugar importante na história da tecnologia e das telecomunicações brasileiras.
Mas o rádio ainda precisaria percorrer um longo caminho até se transformar em um verdadeiro meio de comunicação de massa.
1922: o momento que mudou tudo
O ano de 1922 marcou o centenário da Independência do Brasil.
No Rio de Janeiro, então capital da República, foi realizada uma grande Exposição Internacional para celebrar a data.

Foi durante as comemorações, em 7 de setembro de 1922, que aconteceu aquela que é tradicionalmente considerada a primeira transmissão radiofônica oficial do Brasil.
Equipamentos trazidos ao país por empresas norte-americanas permitiram demonstrar ao público o funcionamento da nova tecnologia.
Uma antena foi instalada no Morro do Corcovado, enquanto equipamentos de transmissão foram utilizados na região da exposição.
E então aconteceu algo que, para a época, parecia quase inacreditável.
A voz do então presidente Epitácio Pessoa foi transmitida durante a celebração.
A transmissão também levou aos ouvintes, naquela noite, a ópera O Guarani, de Carlos Gomes.
O sinal chegou a locais como Niterói, Petrópolis e São Paulo, onde foram instalados aparelhos receptores para acompanhar a experiência.
Era a demonstração de que uma voz poderia atravessar grandes distâncias sem depender de fios.
O Brasil acabava de descobrir uma nova forma de comunicação.
Mas o rádio ainda não havia chegado de verdade às casas brasileiras
A transmissão de 7 de setembro foi histórica, mas não significou que o rádio tivesse imediatamente se transformado em um serviço permanente.
Ainda era preciso construir emissoras, formar profissionais, desenvolver uma programação e, principalmente, convencer as pessoas de que aquela nova tecnologia poderia fazer parte do cotidiano.
Foi nesse momento que surgiu um dos nomes mais importantes da história da radiodifusão brasileira:
Edgard Roquette-Pinto.

Médico, antropólogo, professor e pesquisador, Roquette-Pinto enxergou no rádio algo muito maior do que uma simples novidade tecnológica.
Para ele, o rádio poderia ser uma ferramenta de educação, cultura e informação.
E foi justamente essa ideia que ajudou a definir os primeiros passos da radiodifusão brasileira.
1923: nasce a primeira emissora oficial

No dia 20 de abril de 1923, Roquette-Pinto, ao lado de Henrique Morize e outros integrantes da Academia Brasileira de Ciências, participou da fundação da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.
A primeira transmissão experimental aconteceu em 1º de maio de 1923.
A emissora nasceu com uma proposta diferente daquela que o rádio teria décadas mais tarde.
Não havia a preocupação de conquistar grandes anunciantes ou formar celebridades.
A Rádio Sociedade tinha uma vocação essencialmente educativa e cultural.
Seu projeto era levar conhecimento e cultura por meio daquele novo e fascinante veículo de comunicação.
A emissora se manteve inicialmente por meio das contribuições de seus associados e não possuía vínculos governamentais ou empresariais. Seu estatuto também estabelecia restrições à propaganda política, religiosa e comercial.
O lema definido por Roquette-Pinto resume muito bem aquele espírito:
“Pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil.”
O rádio começa a encontrar seu público
A partir daí, a história começa a ganhar velocidade.
Outras emissoras surgiriam.
Os aparelhos receptores começariam, pouco a pouco, a se tornar mais presentes.
A programação se diversificaria.
E o rádio descobriria uma característica que seria fundamental para sua sobrevivência durante décadas: a capacidade de criar intimidade com o ouvinte.
Quem ligava o aparelho não apenas recebia uma informação.
Passava a ouvir uma voz.
Uma voz que entrava dentro de casa.
Uma voz que acompanhava o café da manhã, o trabalho, o almoço, a tarde e as noites.
Essa relação de proximidade seria responsável por transformar o rádio em um dos maiores fenômenos de comunicação da história do Brasil.
O nascimento de uma paixão que atravessaria gerações

Ainda faltava muito para chegarmos à chamada Era de Ouro do Rádio.
Os grandes programas de auditório ainda estavam por vir.
Os cantores que se transformariam em ídolos nacionais ainda começariam suas trajetórias.
As radionovelas ainda conquistariam famílias inteiras.
As transmissões esportivas ainda revolucionariam a maneira de acompanhar o futebol.
E o jornalismo radiofônico ainda ganharia uma importância enorme.
Mas as bases estavam lançadas.
Em poucos anos, aquela invenção que parecia restrita a cientistas e entusiastas se transformaria em parte da vida cotidiana do brasileiro.
O rádio não seria apenas uma tecnologia.
Seria companhia, informação, entretenimento, emoção e memória.
E talvez seja justamente essa capacidade de criar vínculos que explique por que, mais de cem anos depois, ele continua vivo.
Uma história que merece ser contada
Contar a história do rádio brasileiro é contar também a história do próprio Brasil.
É falar sobre política, cultura, música, jornalismo, futebol, publicidade e comportamento.
É lembrar de grandes nomes que fizeram do microfone uma profissão.
E é também olhar para milhares de profissionais anônimos que passaram suas vidas atrás de um microfone, em uma mesa de operação, em uma redação, em um estúdio ou pelas ruas fazendo reportagem.
Ao longo desta série, vamos voltar no tempo para acompanhar essa transformação.
Vamos conhecer as primeiras emissoras, os grandes locutores, os programas que marcaram época, a Era de Ouro, a chegada da televisão, a expansão das rádios FM, a transformação provocada pela tecnologia e, finalmente, a reinvenção do rádio na internet e no mundo dos podcasts.
Porque a história do rádio não terminou.
Ela continua sendo transmitida.
📻 No próximo episódio
Episódio 2 — Os anos 1930 e a transformação do rádio em fenômeno de massa
No próximo capítulo, vamos conhecer a década em que o rádio brasileiro deixou de ser uma experiência tecnológica e começou a conquistar definitivamente o público. A publicidade, os artistas, os programas de auditório e os primeiros grandes fenômenos da radiodifusão começariam a mudar para sempre a relação dos brasileiros com o rádio.


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