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Quando o corpo nos lembra o quanto somos frágeis

Foto do escritor: Vinícius Nunes
Vinícius Nunes
há 23 minutos
6 min de leitura

Nesse mês de setembro, fui acometido por uma labirintite terrível, daquelas que me deixaram impossibilitado até de levantar da cama por várias horas.


E foi justamente a partir disso que comecei a pensar em como uma coisa aparentemente simples pode fazer com que tenhamos de mudar completamente a nossa rotina.


Porque, quando a labirintite ataca, meus amigos, não tem Cristo que resolva.


A sensação de tontura é horrível. O mundo parece perder o eixo e, de repente, aquilo que fazemos todos os dias sem sequer pensar passa a exigir atenção.


Levantar.


Caminhar.


Olhar para os lados.


Ir ao banheiro.


Dirigir.


Trabalhar.


Tudo passa a exigir um cuidado que normalmente nem percebemos que existe.


E fiquei pensando também nas pessoas que convivem com problemas muito mais graves e precisam lidar diariamente com limitações que, para elas, não são temporárias.


Eu confesso: vejo essas pessoas de uma maneira diferente hoje.


São verdadeiros exemplos de força, porque não é fácil precisar se adaptar permanentemente a algo que o restante de nós costuma considerar simplesmente... normal.


É curioso como precisamos perder temporariamente alguma coisa que parecia garantida para perceber o seu verdadeiro valor.


O corpo que a gente esquece


Passamos boa parte da vida preocupados com trabalho, dinheiro, contas, problemas, compromissos, redes sociais, planos e tantas outras coisas.


Poucas vezes paramos para pensar que simplesmente estar de pé e caminhar normalmente já é algo extraordinário.


A gente só percebe a importância de determinadas partes do nosso corpo quando alguma coisa deixa de funcionar como deveria.


Se você já quebrou uma perna ou um braço e precisou passar semanas ou meses com um membro engessado, provavelmente sabe exatamente do que estou falando.


De repente, tomar banho muda.


Dormir muda.


Subir uma escada muda.


Até coçar uma parte do corpo pode virar uma operação complicada.


E aí eu cheguei ao meu ponto-chave neste mês:

como somos sensíveis demais.


A falsa sensação de controle


Nós gostamos de acreditar que controlamos nossas vidas.


Temos agenda, horários, planos, metas, compromissos, boletos, projetos e uma infinidade de coisas organizadas.


Mas existe uma diferença enorme entre planejar a vida e controlar a vida.


Uma alteração física pode mudar o nosso dia inteiro.


Uma questão emocional pode fazer com que aquilo que parecia simples se torne difícil.


Um problema de saúde pode nos obrigar a cancelar compromissos.


Uma ligação pode mudar completamente o nosso dia.


Um acidente pode mudar uma história inteira.


Uma notícia pode mudar nossas prioridades.


E, mesmo assim, continuamos vivendo muitas vezes como se tivéssemos tempo infinito.


Talvez tenhamos muito mais controle sobre as nossas escolhas do que sobre aquilo que acontece conosco.


Somos vulneráveis.


Somos sensíveis.


Somos frágeis.


Resumindo: somos nada diante de algumas coisas que simplesmente não conseguimos controlar.


Calma! Não quero que você tenha uma crise existencial depois de ler isso, tá?


Só quero que você reflita comigo.


Porque a fragilidade humana talvez esteja justamente no fato de que podemos passar meses planejando o futuro e, em poucos minutos, perceber que o presente é tudo o que realmente temos.


E mais uma vez: as pequenas coisas


Estou parecendo um papagaio às vezes, mas vou repetir:

precisamos dar importância às pequenas coisas.


Conseguir levantar da cama.


Caminhar sem medo de perder o equilíbrio.


Trabalhar.


Dirigir.


Tomar um café tranquilamente.


Sair de casa.


Encontrar alguém.


Abraçar alguém.


Ouvir música.


Fazer aquilo que gostamos.


Eu me lembro de como sinto falta de estar no ar.


De estar no rádio.


De estar no estúdio.


De colocar uma música para tocar.


De conversar com as pessoas.


De curtir músicas — até aquelas que eu não gosto, mas que as pessoas gostam.


Porque, por mais simples que possa parecer a profissão de um radialista, ela pode mudar a vida de alguém o tempo inteiro.


Talvez seja por isso que algumas coisas que pareciam tão comuns começaram a ter outro significado.


Colocar uma música para tocar.


Falar no rádio.


Conversar com alguém.


Sair para trabalhar.


Encontrar um amigo.


Dar risada.


São coisas que normalmente fazemos no automático.


E talvez o problema esteja justamente aí.


A gente vive tanta coisa no automático que esquece de perceber que está vivendo.


A gente só percebe quando perde


Damos o devido valor a muitas coisas da nossa vida quando, de fato, perdemos.


Só valorizamos o silêncio quando existe barulho.


A liberdade quando existe alguma limitação.


A saúde quando aparece um problema.


O tempo quando percebemos que ele passou.


A presença de alguém quando essa pessoa não está mais por perto.


Então eu te pergunto:

Quantas coisas importantes na sua vida você só percebe quando deixa de tê-las por perto?


Pense nisso por alguns segundos.


Talvez a vida esteja acontecendo enquanto esperamos


Estamos sempre esperando alguma coisa.


O salário.


O fim de semana.


As férias.


Comprar alguma coisa.


Alcançar determinado objetivo.


Resolver determinado problema.


Ter mais dinheiro.


Ter mais tempo.


E, enquanto esperamos, a vida continua acontecendo.


O problema é que talvez estejamos tão preocupados com o próximo capítulo que esquecemos de ler o que está acontecendo na página atual.


Talvez essa experiência tenha servido justamente para me lembrar de que não precisamos esperar uma grande conquista para perceber que existem coisas boas acontecendo agora.


Não é sobre viver com medo


E aqui eu preciso fazer uma ressalva.


Não quero que este texto seja interpretado como um convite para vivermos preocupados com doenças, acidentes ou com tudo aquilo que pode dar errado.


Muito pelo contrário.


Não podemos abandonar nossos planos e objetivos por medo do que pode acontecer.


Se começarmos a pensar em todas as coisas ruins que podem acontecer conosco, provavelmente vamos enlouquecer.


A vida tem riscos.


Faz parte.


A questão não é viver com medo.


É não esquecer o presente enquanto construímos o futuro.


Cuidar mais do corpo.


Cuidar da mente.


Respeitar nossos limites.


E, principalmente, prestar mais atenção nas pessoas que estão ao nosso redor.


Conecte-se com as pessoas


Essa talvez seja uma das coisas que mais tenho pensado ultimamente.


Pare de perguntar para alguém se está tudo bem apenas por obrigação.


Pergunte de verdade.


Escute de verdade.


Se conecte com as pessoas que estão ao seu redor.


Você pode se surpreender com as histórias que vai encontrar.


Eu mesmo adoro ouvir histórias.


Histórias de uma vida inteira.


Histórias de superação.


Histórias de momentos difíceis.


Histórias que começaram de uma maneira e terminaram completamente diferentes.


E o mais interessante é que muitas vezes essas histórias estão ao nosso lado.


No trabalho.


Na família.


Entre os amigos.


Na mesa ao lado.


Às vezes passamos tantas horas por dia ao lado de determinadas pessoas e nos limitamos a um simples:


“Bom dia.”


“Tudo bem?”


“Até amanhã.”


Talvez esteja na hora de ir um pouco além.


Porque as pessoas são muito mais do que aquilo que mostram durante cinco minutos de conversa.


Vamos valorizar o banal


Comecei a perceber que algumas coisas são chamadas de banais simplesmente porque estamos acostumados com elas.


Mas talvez elas não sejam banais.


Talvez sejam presentes.


Aquele abraço que você recebe.


Aquele café que você toma tranquilamente.


A música que você gosta.


A conversa inesperada.


A pessoa que pergunta se você está bem e realmente quer saber a resposta.


Seu cachorro ou seu gato que fica esperando você chegar em casa e, mesmo depois de um dia inteiro longe, recebe você como se fosse a melhor coisa que aconteceu naquele dia.


Isso é maravilhoso.


Isso tem valor.


Escuta o Vini aqui:

não espere perder para perceber.


O que essa e outras experiências estão me ensinando


Aprendi que meu corpo merece mais atenção.


Aprendi que nem tudo está sob meu controle.


Aprendi que desacelerar também pode ser necessário.


Aprendi que saúde não deveria ser lembrada somente quando falta.


Aprendi que algumas coisas que considero pequenas são, na verdade, enormes.


Aprendi que precisamos aproveitar mais o presente.


E talvez eu ainda esteja aprendendo tudo isso.


Porque a gente entende uma coisa hoje e amanhã já esquece.


A vida volta à correria.


Os boletos chegam.


Os problemas aparecem.


O trabalho chama.


A rotina retorna.


E talvez seja justamente por isso que precisamos ser lembrados de vez em quando.


Talvez a grande lição seja respeitar a nossa fragilidade


Talvez a grande lição não seja ter medo da nossa fragilidade.


Talvez seja aprender a respeitá-la.


Entender que não somos indestrutíveis.


Que não controlamos tudo.


Que precisamos cuidar de nós mesmos.


E que também precisamos tomar cuidado para não deixar que o nosso ego ocupe um espaço maior do que deveria.


Aliás, ainda vou falar bastante sobre ego por aqui.


Porque ego elevado demais pode destruir relações, afastar pessoas e, muitas vezes, esconder problemas que a própria pessoa ainda não conseguiu resolver dentro dela.


Mas você não precisa ser babaca porque alguém foi babaca com você.


Você não precisa pagar com a mesma moeda.


Você pode simplesmente escolher não carregar aquilo.


Mas isso é assunto para outro texto.


Por enquanto, fico com uma certeza:

somos frágeis. Muito mais do que gostamos de admitir.


E talvez seja justamente essa fragilidade que torne cada dia tão valioso.


Então eu deixo uma pergunta para você:


O que existe hoje na sua vida que você só vai perceber o valor quando não puder mais fazer?


Faça uma lista mental.


Pense naquela pessoa.


Naquele abraço.


Naquele amigo.


Na sua família.


No seu trabalho.


No seu pet.


Na música que você gosta.


Na possibilidade de sair de casa.


Na capacidade de caminhar.


Na liberdade de simplesmente levantar da cama e seguir o seu dia.


Talvez você descubra que aquilo que parecia banal é, na verdade, uma das maiores riquezas que você possui.


E talvez a gente não precise esperar perder alguma coisa para finalmente perceber isso.


Às vezes, tudo o que precisamos é parar por alguns minutos, respirar e agradecer pelo simples fato de podermos continuar.

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