A tecnologia está nos deixando preguiçosos?

A tecnologia está nos deixando preguiçosos?

Talvez essa seja uma pergunta difícil de responder. Afinal, a tecnologia chegou justamente para facilitar a nossa vida. Ela nos poupa tempo, esforço e, em muitos casos, até dinheiro. Mas, conforme vamos nos acostumando com toda essa facilidade, será que não estamos também deixando de fazer algumas coisas que antes eram naturais para nós?
Hoje, com a automação das coisas, estamos, já há muito tempo, mal-acostumados com pequenas tarefas que fazíamos até pouco tempo atrás.
Veja um exemplo simples.
Você pode adaptar as tomadas da sua casa para serem acionadas por meio de dispositivos como a Alexa. Em vez de levantar do sofá, caminhar até a tomada e apertar o interruptor, basta dizer que determinada luz deve ser acesa. Se a lâmpada for RGB, você pode até escolher a cor que deseja para aquele ambiente.
É extremamente conveniente.
E talvez esse seja justamente o problema: é tão conveniente que rapidamente nos acostumamos.
Você quer ouvir uma música? Não precisa mais procurar um disco, colocar o vinil no toca-discos, escolher o lado, posicionar a agulha e esperar a música começar. Basta dizer: "Tocar música pop".
Pronto.
O dispositivo pode escolher uma playlist para você. Pode ser uma seleção de sucessos, músicas de determinada década ou simplesmente uma playlist de algum serviço de streaming.
Se você não gostar da música que está tocando, também não precisa levantar. É só pedir para pular.
Tudo ficou mais fácil.
E quando nos acostumamos com essas facilidades, algumas coisas que fazíamos antes simplesmente deixam de fazer parte da nossa rotina.
Eu mesmo sou um exemplo disso.
Tenho um toca-discos e vários discos de vinil. Sempre gostei de ouvir música dessa maneira. O vinil tem todo um ritual: escolher o disco, retirá-lo da capa, colocá-lo no toca-discos, limpar, posicionar a agulha e ouvir.
Existe algo especial nesse processo.
Depois que comprei um dispositivo com Alexa para a minha sala, porém, deixei de ouvir meus discos com a mesma frequência.
E olha que, para mim, a qualidade do vinil é insuperavelmente melhor.
Mesmo assim, passei a preferir a Alexa.
Não necessariamente pela qualidade do som, mas pela comodidade.
E foi aí que percebi uma coisa: eu não tinha apenas deixado de ouvir meus discos. Eu havia deixado de realizar todo aquele ritual que fazia parte da experiência de ouvir música.
A tecnologia não havia simplesmente facilitado uma tarefa. Ela havia eliminado uma parte da experiência.
E talvez isso esteja acontecendo em várias outras áreas da nossa vida.
Estamos cada vez mais conectados a tecnologias que fazem as coisas por nós. Elas acendem nossas luzes, escolhem nossas músicas, calculam, escrevem, resumem, pesquisam e, cada vez mais, pensam conosco.
Ou, talvez, até por nós.
É claro que não há nada de errado em utilizar essas ferramentas. Seria até contraditório escrever sobre isso utilizando um computador ou um celular.
O problema começa quando deixamos de saber fazer algo porque simplesmente nunca mais precisamos fazer.
Existem pessoas que, por exemplo, deixam de ler um livro para procurar um resumo na internet.
Mas será que absorvem tudo o que o livro tem a oferecer?
Será que compreendem as ideias?
Será que têm a mesma experiência de quem passou horas lendo aquelas páginas, acompanhando os personagens, refletindo sobre os argumentos ou simplesmente deixando a imaginação trabalhar?
Talvez não.
É mais ou menos como aconteceu quando começamos a utilizar calculadoras na escola.
A calculadora é uma ferramenta fantástica. Ela resolve contas rapidamente e evita erros. Mas, quando passamos a depender dela para qualquer operação, deixamos de exercitar algo que antes fazíamos naturalmente: calcular.
Não estou dizendo que deveríamos abandonar as calculadoras, voltar a ouvir apenas discos de vinil ou deixar de utilizar inteligência artificial.
A questão é outra.
Até que ponto estamos utilizando a tecnologia como ferramenta e a partir de que momento começamos a depender dela?
Essa pergunta ficou ainda mais forte para mim com o avanço da inteligência artificial.
Recentemente, um profissional que trabalhou para duas das maiores empresas de inteligência artificial do mundo pediu demissão após demonstrar preocupação com os rumos que essas tecnologias estão tomando.
E isso me fez pensar novamente sobre a nossa relação com a tecnologia.
Porque talvez o problema não esteja apenas na tecnologia.
Talvez esteja também em nós.
Quanto mais uma máquina consegue fazer por nós, menos precisamos fazer.
Quanto menos precisamos fazer, menos praticamos.
E quanto menos praticamos, maior pode ser a nossa dependência.
Será que, além de estarmos nos tornando mais preguiçosos, estamos também terceirizando pequenas partes da nossa capacidade de pensar?
Será que estamos alimentando tecnologias que, no futuro, poderão fazer praticamente tudo por nós?
E, se isso acontecer, o que sobrará para nós fazermos?
Não sei.
Talvez eu esteja exagerando.
Talvez a tecnologia simplesmente esteja nos levando para uma nova etapa da humanidade, como tantas outras invenções fizeram no passado.
Mas existe algo que me incomoda.
Quando olho para o meu toca-discos parado na sala e para a Alexa fazendo em segundos aquilo que antes exigia todo um ritual, percebo que a tecnologia não apenas tornou minha vida mais fácil.
Ela também me fez abrir mão de algumas experiências.
E talvez seja essa a parte que deveríamos observar com mais cuidado.
Não o quanto a tecnologia consegue fazer por nós.
Mas o quanto estamos deixando de fazer por causa dela.
No fim, talvez a grande questão não seja se estamos ficando mais preguiçosos.
Talvez seja saber se estamos ficando menos dispostos a pensar, experimentar e fazer as coisas por nós mesmos.
Não sei.
Só sei que pensar está ficando cada vez mais escasso entre nós.


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